Emoção, tristeza e desilusão marcaram a lembrança dos quatro anos da maior chacina acontecida na região metropolitana do Rio: a Chacina da Baixada, como ficou conhecido o assassinato de 29 pessoas, sendo oito crianças.
No dia da chacina, 31 de março, o Núcleo de Familiares e Amigos de Vítimas de Violência, com o apoio da Diocese de Nova Iguaçu e diversas entidades e movimentos sociais organizaram uma caminhada para protestar e relembrar as vítimas dessa chacina.
A caminhada reuniu parentes e vitimas de violência no Rio para refazer o trajeto dos assassinos, que começou na via Dutra, altura de Nova Iguaçu, até a Igreja da Sagrada Família, na Posse. Na chegada, amigos e familiares das vítimas cobraram mais agilidade da justiça para o caso.
Maria Helena: dor de mãe
Na pequena igreja, com três entradas, uma frontal e duas laterais, as pessoas se acomodavam nos bancos de madeiras. No altar, líderes ecumênicos esperavam pacientemente as pessoas tomarem seus assentos. Na porta principal Maria Helena Soares, mãe de Felipe assassinado com apenas 13 anos, segurava um cartaz com fotos das crianças assassinadas. Os olhos, ainda guardavam algumas lágrimas, mesmo depois de tantos anos de dor. São 20 metros da porta da igreja até o altar, onde o bispo de Nova Iguaçu, dom Luciano Bergamin, a aguardava para o inicio da missa.
“Há quatro anos acompanho a luta dos familiares por justiça. Precisamos mostrar esta barbárie não pode ficar impune para que isso não aconteça com mais ninguém”, diz Itamar Leite, que teve amigos mortos na chacina.
Se para amigos, conhecidos ou pessoas que nunca tiveram contato, o fato causa indignação, para as pessoas que perderam seu filhos, netos e irmãos a data é relembrada com tristeza e revolta pela impunidade e a demora da lei para julgar os culpados.
Madalena: desabafo como protesto
“É preciso ter muita força. Nós batalhamos diariamente para que a justiça seja feita e colocar esses monstros na cadeia. Até hoje, várias famílias não foram indenizadas pelo estado”, desabafa Madalena Soares, tia de Felipe Soares de treze anos, assassinado naquela noite.
Creusa Regina Xavier perdeu o neto Douglas na chacina e diz que ainda é muito difícil lidar com a perda do seu neto. “O maior problema é saber que nunca mais o teremos de volta. Essa espaço nunca mais será preenchido. O que dói mais é saber que se não fosse por uma comoção geral essas mortes nunca seriam investigadas”, indigna-se Creusa, que, por medo, mudou de localidade, mas participa sempre das manifestações. Além dos familiares e amigos da chacina da Baixada, também participaram do ato as Mães da chacina do Maracanã, da Candelária.
Testemunhas ainda sofrem coação
Parentes e testemunhas das vitimas da chacina ainda sofrem ameaças de desconhecidos que circulam na localidade. O fato levou familiares das vitimas a procurarem o Ministério Público Estadual, em Nova Iguaçu, no último dia dez de março para denunciar.
Acompanhado do diretor executivo do Centro de Direitos Humanos de Nova Iguaçu (CDH) Padre Justino, familiares expuseram a preocupação de coação e ameaças as testemunhas do crime. Dos ex-policiais envolvidos, apenas dois foram condenados (Jorge Carvalho e José Augusto Felipe), outros dois aguardam o julgamento (Julio Amaral e Marcos Siqueira) e um está em liberdade (Fabiano Lopes), por ter cumprido quatro anos de pena pelo crime de formação de quadrilha.
Creuza Regina perdeu o neto na chacina
A representante da Associação de Familiares e Amigos de Vítima de Violência (AFAVIV), Luciene Silva afirma que os familiares estão com medo: “Muitos moradores já relataram a presença de pessoas suspeitas de ter ligação com os criminosos na região onde moram os familiares e testemunhas”, conta.
Moradores, que pediram para não serem identificados, afirmam que essas pessoas circulam encapuzadas, dentro de carros sem placas e são vistos constantemente pelas nos locais onde aconteceu a tragédia como forma de coagir familiares e testemunhas.
Para padre Justino o importante é ficar vigilante a respeito do assunto que já causou muita dor. “Só quem passa por momentos como este pode definir o que sente. É claro que estas pessoas ficaram marcadas, o trauma foi imenso e o receio vai fazer parte da vida deles para sempre”, desabafa.
Passados quatro anos, a polícia ainda não deu uma versão oficial do que realmente aconteceu naquele dia. São duas as hipóteses investigadas: que os policiais integrariam grupos de extermínio da Baixada e por isso escolheram suas vítimas aleatoriamente. O intuito era causar terror, medo e pânico. A outra possibilidade era a insatisfação com a "Operação Navalha na Carne", que investigava PMs envolvidos com o assassinato de dois homens, alguns dias antes da chacina. A corporação queria demonstrar sua insatisfação com a mudança do coronel do 15º Batalhão de Duque de Caxias.